segunda-feira, 30 de maio de 2016

Acordei meio acordado
de um sonho que não havia sido sonhado.
Tropecei assombrado,
no impedimento que não tinha ainda chegado.
Caí inteiro de peito aberto,
e um espelho terminou,
de beijar o sonho, que ninguém sonhou.
Mordi a língua que não dissera nada,
com um dente que se quebrara.
O dente ficou na língua,
cravando a lembrança do que não estivera.
Acordei meio adormecido
para uma ironia sem sentido.

sábado, 28 de maio de 2016

não tentar em casa, outra versão

Certas loucuras, estão repletas de um sentido outro.
Lucidez não compartilhada, inacessível. Espécie de misticismo da racionalidade.
Sabe tão bem, por momentos, ver o mundo como ele é, sem fantasias, historinhas, versinhos, ideologias. O suor de quem construíu estes caminhos versus o perfume da menininha no início do mês. O saco do futebol dos homens que se negam ao tempo que passa, resistência que me agrada, simpatizo. Não serve de nada.
Ver a realidade, com sabor de sangue na gengiva, demanda ação. O animal que vive em nós, morre de fome no pensamento, ainda assim, planeia.
Há duas semanas venho seguindo a mulher de casaco amarelo. Onde vive, onde trabalha, copo do strabucks Genoveva, tem nojo do botão de abrir as portas. Não é por isso que a vou matar . Vou tirar-lhe a vida que arruína vidas. Live and let die gritava Paul McCartney a plenos pulmões, não vives deixando viver, alguém tem que dar um jeito nisso. Justiça? Se necessitasse justificar-me…a mulher do casaco foi confrontada por uma outra mulher, amigas. A Genoveva dormia com o marido da outra, lera uma mensagem…chorava. Telenovela de cordel no vagão das oito. É por isso que a mato? Em parte. A justiça que não se conseguiu reclamar apenas chamou a minha atenção. Amarelinha gosta de passar na frente, de velhos, de deficientes, de crianças, de grávidas. Espera depois da limitação, acotovela, sempre procurando a sua vantagem…é por isso? Quem sabe…ela deve morrer. E pensar que serei eu a olhar no seu olho em seu derradeiro parpadear…traz-me paz, um alívio, um gosto de azeite e sal no pão da manhã. Imagino as minhas mãos naquele seu casaquinho, a força que terei que fazer, o seu pé apenas tocando o meu enquanto o imobilizo, ela caindo, deixando-me saborear a sua despedida.
Um assassinato como deve de ser. Penso nisso deleitada, adoro a perfeição. Não a conheço, nada me liga a ela. 
O metro fechando, sem câmaras …Um pequeno gesto para recolocar este universo fragilizado.
A sós, avanço para ela, os meus sapatos ecoam no túnel como um coração que palpita. Chego tão perto que sinto como cheira a limão, os cabelos a pantene, vem aquele gosto na gengiva, tudo faz sentido…previsível Genoveva. Respeito minha condição de vingadora, a lógica animal reconhece o humano…
Desculpe.
Que é?
Sua mãe vive?
Que pergunta é essa?
Seu pai, sua mãe… vive?
Não...
Aí está, o meu coração acelera-se, uma alegria invade-me, tenho sede. Ponho as mãos nos seus ombros, quase  peito, quero sentir o seu coração que lateja…Saboreio nos seus olhos, a perplexidade. Um grito que pede ajuda,enraivecido, ao mesmo tempo pede desculpa. Prendo o seu pé e empurro. A flexão do meu braço, como um pássaro libertando as asas. Oiço sua espinha.
Adeus Genoveva…
Ao longe o apito do trem.

Finalmente a paz e uma música que ecoa…“Ge- ne-ve- pas travailler, Ge- ne- ve- pas déjeuner, Je veux seulement oublier, Et puis je fume…”


Exercício de escrita criativa. Curso com Noemi Jaffe. Casa do saber.

quinta-feira, 26 de maio de 2016

não tentar em casa

O ruído do trem que chega, o trem que vai. Não sei quem chega, não sei quem parte.
Colocaram a fita amarela para os cegos.
 Terão medo que algum cego caía sem querer na via?Ali à frente a clássica mulher que gosta de ter vantagem sobre todos. Na frente do traço amarelo. Fora de jogo se fosse bola.
 Será que ninguém pensa em empurrá-la? Que aconteceria se eu fosse lá e desse um empurrão?
Ela teria capacidade de resposta? Alguém saltaria para a salvar como o anjo de "puerta del angel". Será que se ela se deitar nas vias o trem passa por cima e ela sobrevive, como nos filmes? Será que eu iria preso? Gide dizia que era o assassinato perfeito. Nenhuma ligação entre a vítima e o assassino. Aqui o problema são as testemunhas...Teria tempo de fugir? Quero fugir? Qual seria a pena? Dez anos de prisão? Será que prisão é tão insuportável mesmo? Isto não é pior?
Ai a cabra da mulher não deixa passar a velha da bengala.
Apressada, querendo tirar vantagem e com um casaco amarelo que fere a vista como estes guinchar de rodas enferrujadas fere o ouvido...ou é o travão? Infernal, ruído infernal do metro. De toda esta gente mastigando seus donuts com cafe com leite, suas sanduíches de queijo manchego, vão todos para la madre que los parió.
E se empurro a mulher, vou lá, encosto a mão devagar no casaco brilhante dela, e empurro. Vejo como ela cai, não sem primeiro resistir, esbracejar num gesto de urgência, emitir o som de um susto, de uma zanga e ao mesmo tempo um pedido de clemência, de perdão.
O sapato é barato, vai quebrar, vai resistir à passagem do comboio, vaso ruim não quebra.
O que tenho a perder? O que não está perdido ainda?
Será que ela tem algo a perder? Isso não importa, será que alguém a perderia?
 Casaquinho amarelo prepotente, tirando vantagem, sapatinho de verniz barato...não deve ter.
E a mãe, mãe não se recupera de perder filho.
Desculpe.
Que é?
Sua mãe vive?
Que pergunta é essa?
Seu pai, vive?
Não...
Vi o seu rosto perplexo, marcas de base alaranjada, olho verde bonito ainda, lentes de contacto secas, um trejeito de irritação no lábio superior, cheiro a canela com baunilha, o cabelo precisando de ser pintado. A raiz espreitando, única verdade no cacto em questão.
Coloquei a mão no casaco amarelo, como uma carícia no ombro, deslizei a mão do ombro para o peito, olhei no olho dela.
Senti nas minhas mãos um coração acelerar-se, não sei se surpreso ou assustado.
Uma calma imensa se abateu sobre mim.
Empurrei-a rápido, preciso.
Caiu de costas, e ficou de sapato perdido me olhando de volta.
Ninguém se mexeu na plataforma.
Agora eles tem câmaras, podem ver que fui eu, que se foda.
Veio o trem rápido tentando travar.
Respingou um pouco de sangue na minha camisa de flanela.
Abriram-se as portas, automáticas em sua frieza.
Passe você senhora, disse à tal velhinha.

Exercício escrita criativa
Procurar/
curar/
colar.

by  Tom

terça-feira, 24 de maio de 2016

Filomena VI

Dormi sem meias desde então. Dormi sem meias e de unhas pintadas. Fui à depilação.
Alisei o cabelo. Comprei um vestido novo.
Tudo isso enquanto planeio o roubo.
Entrarei bem vestida no banco, com o cabelo de outra cor e óculos de massa, irei ao balcão do Zé, logo depois do moço das quintas feiras.
Mostrarei uma arma de plástico que comprei sábado passado na vinte cinco de março, ah detalhe, levarei um vestido novo com mangas de sino, assim a arma será visível mas não será facil realmente observá-la.
Me passe a grana ó fulano...todos no chão que ninguém tenha ideias heroicas!
Tal e qual nos filmes, guardo a grana numa malinha de viagem luis de vito comprada na Liberdade. E aí o truque de mestre, sair pela porta dos fundos, que só a Ermelinda usa quando limpa a agência.
Ainda não decidi se regressar de ônibus, taxi ou uber.
Taxista faz muitas perguntas, mas uber fica com nosso registo...talvez ônibus, mas tenho que me trocar em algum lugar...devia ter aquela roupa, como nos filmes, que se dá um puxão e sai. De stripper mais ao menos.
Também preciso uma peruca, um lenço, ou um boné...roupa desportiva, o boné para dentro e a luis de vito? Ideal seria guarda-la.
Melhor ir de carro, estacionar perto, sem ser garagem...trocar-me no carro e guardar a mala. Voltar de ônibus. Vou buscar os meninos à escola. Peço a minha cunhada que os leve para casa deles, ela tem piscina é verão...volto em metro, pego o carro com outra roupa ainda...
Volto para casa tranquilamente, entro pela garagem que não tem câmaras e guardo a grana no cesto das maçãs.
Quando o Zé chegar a casa ofereço-lhe um café e uma fatia de torta de maçã...
Será eu está bem assim?
Ou é melhor ter um alibi bem sólido?
Vou no médico, peço que me desdobrem o recibo. Um nesse dia, outro para a tal quinta feira...não é grande alibi mas de repente dá jeito...
O que vocês acham? Vocês poderiam ser meu alibi, na tal quinta feira eu não fiz nada fora do comum, seria verdade. Eu assalto esse banco todos os dias na minha cabeça...



segunda-feira, 23 de maio de 2016

Filó e a sua ideia V

Fomos ficando sem pão, vimos a manteiga rançar, e o café que eu passei de novo secou nas taças de todos os dias. O relógio da cozinha acusou o atraso, e o Zé não se mexeu.
Não vais chegar atrasado?
Vou, mas está tão legal a nossa conversa...
Olhámos um para o outro...
Vi lá bem no fundo do seu olho castanho, algo amarelo, ou dourado, algo que entendi como uma faísca, como um fogo, como um incêndio. Algo que não estava quando estendi a toalha lavada sobre a mesa, algo que não estava ontem, nem anteontem, nem antes de antes de antes de antes de ontem.
Já teria visto algo assim no Zé?
Claro que sim, o dia em que nos beijamos pela primeira vez. A primeira vez que viu Mari e Amandinho. O dia em que comprou sem primeiro carro.
Lembro desse dia em especial...eu estava angustiada com entregar todos nossos pertences a um desconhecido, ainda mais para alguém que vendia um mercedes tão antigo, em terceira mão.
Zé no entanto, estava confiante, estava cheiroso, se vestira bem para a ocasião. Foi nesse dia que saímos a passear pela última vez juntos. Nós em nosso mercedes, que se chamou Carmem em honra da avó espanhola de José. Fomos com Carmen até uma lanchonete, tomámos cada um uma cerveja black, um supimpa com bacon extra, e sorrimos muito. Antes de voltar a casa parámos a beijar-nos, a sentir-nos, a saborear-nos como adolescentes em filme americano. Umas semanas depois descobri que Carmen tinha trazido um presente...tristemente os motores deste se apagaram bem antes dos dela.
Fora essa a última vez que os olhos castanhos de José falaram de fogo...
Quieto na sua cadeira, olhando-me fixamente, resistindo-se a levantar-se, a correr para o trabalho, para a hora marcada, para a rotina...José tinha percebido. José tinha lido a minha ideia. A ideia que eu não contaria jamais.
Fiquei a olhá-lo assombrada, no meu olhar não havia mentira. Não diria, jamais, nada.
E você nem sabe Filózinha como são alguns de nossos clientes habituais. Tem um moço que só veste de preto, sabe aquele preto que parece pele de vaca mas não é não...é imitação da riachuelo, sabe qual é? Esse vem toda a quinta feira, traz um monte de bilhetes dentro de um saco de papel da farmácia...sempre deposita quantias abaixo do limite a declarar, eu teria que chamar até o chefe para assinar ele o depósito, mas o cara traz sempre dois reais a menos...dois reais Filó. Por dois reais eu assino o depósito, por dois reais eu não posso fazer perguntas...e o cara nunca diz muito, magro magro, parece um vampiro, sabe como é Filózinha...como dos filmes. Esse é o de quinta feira, sem dúvida é quem deposita mais...

sexta-feira, 20 de maio de 2016

O primeiro poema do meu filho Tom foi o seguinte. A Ana Lúcia perguntou-lhe se ele escrevia, respondeu que sim, poesia, sim...Então diz aí um poema Tom!
Resposta dele:

Lixo!

Hoje, pegou numa caneta e no meu caderno.
Queres desenhar ou escrever?
Escrever! 
Conto, romance ou poema?
 Poema! Quer ver um poema lindo, quer ver?
Quero...

Rabiscou isto...

O que diz filho?

Mãe...pai, vó!